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NEON CUNHA

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Beauty’s where you find it

not just where you bump

and grind it...

...Strike a pose, there's nothing to it

 

(A beleza está onde você a encontra

não apenas onde você solta seu desejo...

...Faça uma pose, não tem nenhum segredo)

 

Vogue | Madonna

A vida de uma pessoa não cisgênera tem outra dimensão, outra velocidade. É um tempo diferente da cronologia de quem desfruta do privilégio de ser cis. Temos uma intensidade, uma urgência. É a velocidade do agora que, talvez, somente a fotografia consiga registrar.

Tenho acompanhado − ou, melhor dizendo, tenho sido acompanhada pelo João Bertholini na reconstrução da memória de minha existência. São horas incontáveis de caminhadas e processos que eu não imaginei possíveis, de ressignificação da dor por meio da beleza de quem traz consigo a sensibilidade de ofertar sua humanidade. Essa humanidade tão negada pelo cissexismo, da perversa ideia de que o gênero das pessoas cis é mais legítimo que o de uma pessoa trans.

Tem de tudo um pouco nessa jornada cheia de encontros com as minhas semelhantes, muitos deles sem despedidas. Em 2018, às vésperas das eleições presidenciais, fomos eu e João na festa de Halloween de um abrigo masculino na Zona Norte de São Paulo, que tinha um espaço para acolher especificamente pessoas LGBTQIA+. Lá, encontrei pela terceira ou quarta vez uma moradora de rua que, quando nos conhecemos, me tratou com certa hostilidade. Nos encontros seguintes já éramos próximas, pois nossas histórias se convergiam na dororidade, conceito elaborado por Vilma Piedade sobre o que de fato une muitas mulheres negras, um contraponto nítido à sororidade do feminismo branco. Nesse caso, a transgeneridade e a travestilidade faziam coro à essa nossa dororidade comum.

Perguntei a ela se gostaria de ser fotografada pelo João. Ela hesitou, dizendo que não se achava bonita e tampouco vestida para isso, ainda que tivesse nos dito anteriormente que se vestira como a Madonna nos anos 1990. Enfim posou, e continuamos conversando sobre a vida. Contou que estava há dias sem banho, e insistiu que fizéssemos uma foto juntas. Horas depois, nos reencontramos na saída do abrigo, já na beira da avenida. Perguntei a ela o que pensava diante da crescente transfobia naquele período eleitoral. Sem hesitar, me disse que sabia da eminência da morte, e que ficaria tão colocada que, se algo lhe acontecesse, não sentiria nada. Sorriu diante do meu espanto e se despediu.

Nas vésperas do Natal de 2019, em São Bernardo do Campo, encontramos outras muitas das minhas semelhantes em uma festa de outra casa de acolhida. Negras dos mais diversos tons e vindas das mais diversas regiões do país, principalmente do Norte e do Nordeste, todas vivendo em situação de rua ou, como muitas fazem questão de reforçar, morando mesmo. Ester não estava lá. Ela se apresentou com outro nome, contou brevemente como as dores de ser uma travesti preta e pobre nas ruas a fizeram omitir sua identidade. Falou do medo da morte, dos perigos e incertezas que a fizeram mudar sua aparência.

Ester não estava lá, mas a sensibilidade de quem já conhecia as verdades não ditas a registrou nesse sensível retrato que acompanha este texto. Ester emergiu gloriosa quando Vogue tocou no som da festa. A dororidade deu lugar para outra forte conexão que só quem vivencia a proximidade com a

morte conhece: a celebração ordinária da vida. Nunca mais nos vimos, foi assassinada em 8 de novembro de 2020, três dias antes de completar 34 anos, com 80% do seu corpo queimado. Ester provavelmente não terá seu nome na lápide.

 

É preciso muita delicadeza e sensibilidade para conseguir avançar na dor sem ferir mais. João tem feito isso. Não é só um registro. A conversa estabelecida antes dele, a relação de afetos, mesmo quando breves, permitem que as nossas verdades, e até nossos sonhos, se materializem.

Ester sou eu, são elas, somos nós, tão negadas em humanidade e tão possíveis de ressignificação, registradas com e pela dignidade de encontros tão ordinários, mas tão afetivos quanto o simples segurar da mão que nunca mais foi solta.

NEON CUNHA

mulher,

negra,

ameríndia,

transgênera.

Nessa ordem.

DANNA LISBOA

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SE SOUL

 

Sou mais bem mais

Que o corpo que me ferem

Internamente além da mente que se limita a entender

Se sou ser, se sou ser,

Se sou, se sou

 

E o novo vem

Sem pudor refaz em mim

Como arde e dói no fim de tudo que se renasce em som

Se sou ser, se sou, se sou

 

Vivo e não paro

Me deixa dançar

A vida eu encaro

 

Pode vir nessa

O clima tá bom

Não pare

Não pare, não pare, não pare, não pare não

 

Sermos pele clara

afro isso interfere?

(Além da flor da pele, além da flor da pele)

Amo quando não me fere

(Além da flor da pele, além da flor da pele)

A condição do que sou isso indefere?

(Além da flor da pele, além da flor da pele)

Viver morrer o que prefere?

(Além da flor da pele, além da flor da pele)

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AVE TERRENA

GENTE

passou enfim o tempo do espanto

nosso canto lentamente nas margens si afinou

nenhuma ternura secou o seu pranto

 

enquanto nos altos escritórios elevadas cifras

isolam da rua seu corpo-esquece-trilhas,

em outra natureza sua linguagem si fez ilha

 

sem companhia não há quem aguente

no vago borrado nenhuma palavra si sente

na torre cercada de mágoa ficou:

a sina silente

 

lamentos de pronto ecoam de antíguas manas

espalhado rastro onde o trono ainda si ergue

no saldo suado da sombra de baixo

aqui é que é 

GENTE

JOÃO

BERTHOLINI

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É sobre a grandiosidade de se permitir diante dos "nãos", e isso não é pouco. É sim sobre humanidade. Mas é um pouco sobre sonhos também. Tem uma força enorme alguém dizer que está aqui, que não vai embora só porque o outro quer, e existe uma dignidade que só o cotidiano é capaz de revelar. Talvez a verdadeira força que a gente guarda dentro de si venha das nossas fragilidades diante do mundo lá fora.

Não existe maior estar presente, pra mim, do que a permissão para que eu possa registrar tudo isso numa fotografia. O retrato é a chance de afirmar essa imensidão num registro único. A verdade da pessoa só se confirma ali, naquela imagem. Não é sobre o passado, como muitos podem pensar. É sobre confiar e confirmar o tempo todo, no presente, que não é uma questão de se manter de pé, é sobre viver o tempo todo, sem pausa.